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Um bolsinho para guardar o coração. Ela esconde e mostra quando quer. O coração por ser grande não cabe totalmente dentro do bolso.
O coração cresce tanto no peito que parece que vai engulir a porca para sempre. Em outras horas, diminui tanto que parece que vai matá-la por conta disso. Funciona mas é impulsivo, genioso e ansioso como a dona dele.
Eu queria muito ter um bolsinho externo pra guardar o que sobrar do meu coração porque sei que vai explodir a qualquer momento.
Há fogo.
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(…) ” Sim, amá-lo é o que deveriam quando estivessem sob o fascínio do seu cheiro, não apenas aceitá-lo como igual, mas amá-lo até a loucura, até o sacrifício pessoal; deveriam tremer de encanto, uivar e gritar, chorar de prazer, sem saber por quê, cair de joelhos — isto é o que deveriam fazer como sob o incenso frio de deus, só por chegarem a cheirá-lo! Queria ser o Deus onipotente do aroma, como o fora em suas fantasias, mas agora no mundo real e sobre pessoas reais. E ele sabia que isso estava em seu poder. Pois as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração. Com esta, penetra nas pessoas, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, direto para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas.” (…)
SÜSKIND, Patrick. O Perfume – A História de um Assassino. Editora Record, Rio de Janeiro, 1985.
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No Meio do Caminho
“No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.”
Carlos Drummond de Andrade
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“Não há melhor meio para se familiarizar com a morte do que associá-la a uma idéia libertina.”
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As caixas de camisa que meu pai não usa mais servem para guardar antigas fitas cassetes. Infelizmente, essas fitas não duram muito quando usadas com bastante frequência. Tragicamente, em fitas quebradas, esticadas, devoradas e desgastadas pelo aparelho de som, foi-se o Dio no Black Sabbath com o maravilhoso álbum Mob Rules.
Certa vez, conversando com o meu amigo OJ, tropecei em alguma coisa e meu (finado) walkman afundou-se na fossa. O que estava dentro dele? A bendita fita cassete com o Mob Rules gravado. Foi um desespero!
Hoje tem mp3, porém continuo ouvindo o que sobrou em fitas cassetes e adoro o som proveniente dos LPs antigos com seus estalinhos…
A flor veio da região de Pinheiros, São Paulo. Caiu de alguma árvore que fica ali nas imediações do Pão de Açúcar, sabe? Ainda me lembro que tinha um cachorro muito lindo que atravessou as grades que cercam o supermercado por querer alcançar o dono. Há cenas que a gente nunca esquece, ou melhor, que faz questão de não esquecer.
Papo animado, amigos maravilhosos, tardezinha meio nublada… Sábado! Aula! Sobre o quê? Design e Comunicação? Excelente! Enquanto íamos pelas calçadas, meio perdidos… Tropecei num galho. Provavelmente não era da mesma árvore que soltou a flor… Estava muito distante! Para ser, só se fosse um milagre para resistir a possíveis chutes, ou talvez, improvável, alguém tenha levado por algum tempo o galho e deixado sobre a calçada, perto de um cestinho de lixo, talvez tenha errado o saquinho… Sei lá! Só sei que olhei e peguei. Não tinha dúvidas! Foi deixado para mim. Pensei até no que poderia fazer com aquele pedaço de galho, limpinho, seco, e bastante ramificado: um porta-colares, brincos, anéis. Lindo e único! Faria uma base para que sustentasse-se, depois, poderia pintar o galhinho, criar grafismos… Lindo!
Flor branca com tons amarelados e já enegrecendo com uma coloração marrom. Natureza morta. Linda no seu morrer! Nascendo na minha idéia. Achei uma outra. Juntei-as. Ficavam bonitas se coladas no galho, combinavam os tons terra, o colar marfim…
Três da madrugada. Eu, computador e scanner ligados. Apaguei a luz do meu quarto. As flores, mortas, jaziam sobre o mármore gélido da minha mesa. O galho tirou uma folga. Cutucava frontalmente a tampa do scanner de modo que quase quebrei um dos ramos. Produzir uma imagem, às vezes, leva um tempo… Arranquei minha blusa amarela, coloquei-a delicadamente sobre as flores, mortas porém não machucadas. Luz! Mais luz! Uma morte bem iluminada para afastar a coloração opaca da tristeza.
As flores deixei cair suavemente sobre o scanner, ajeitei-as como estivesse preparando-lhes o leito de dormir. Busquei aquela que ilumina minhas leituras noturnas de sempre. Um ensaio infinito que só me dei por satisfeita quando consegui essa imagem, que dentro das várias interpretações que possam haver, uma possível abdução alienígena como nos filmes de ficção científica.
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